Conexão Brasil – Itália

Conexão Brasil é uma tag dedicada a compartilhar experiências, acredito que os outros nos ensinam muito sobre nós mesmos e sobre a nossa cultura. Para estrear a tag convidei uma das minhas melhores amigas e companheira de viagem Elizabeth Torres, 26 anos, para nos contar um pouco de como foi morar, durante três anos, na Itália. A Itália vai muito além das pizzas individuais e das massa finíssimas. Você sabia que em italiano pepperoni não é salame e sim pimentão? E que Ciao significa oi e tchau? O que muda é a entonação.

Veneza - Arquivo pessoal Elizabeth

Veneza – Arquivo pessoal Elizabeth

Por que você foi morar na Itália?

Elizabeth – Eu fui morar na Itália em 2007 porque meu marido, na época noivo, fechou contrato para correr pela equipe Minardi na Fórmula 3000 européia. Só para entender, ele é piloto de corrida.

Foi a minha primeira viagem à Europa e primeiro contato com a cultura. Morei lá do início de março até final de novembro. Fui para uma cidade ao norte do país, 60 km de Veneza, Padova.

Veneza - Arquivo pessoal Elizabeth

Veneza – Arquivo pessoal Elizabeth

Como foi o processo para tirar o visto?

Elizabeth – Bom, como o Brasil possui acordo com a União Européia, brasileiros tem o direito de permanecer no país 3 meses sem a necessidade de ter um visto emitido previamente. Mas no caso de estudantes ou interessados em trabalhar, há a necessidade de solicitação de visto no consulado Italiano, que fica localizado na Av. Paulista.

Quando pensamos na Europa o primeiro questionamento são os custos. É caro morar na Itália?

Elizabeth – Com certeza minha impressão é uma opinião particular de quem foi morar no país. Embora eu tenha turistado bastante, quem passa pelo país apenas de visita pode ter uma visão diferente da minha.

Morei um mês num hotel até alugar um apartamento. E minha aventura começou aí. Padova é uma cidade muito antiga,  para se ter ideia Galileu Galilei deu aula em uma universidade localizada no centro, então imagina as residências ao redor, são tão antigas quanto. Fiz tanta cara feia quando visitava os apartamentos disponíveis para locação que terminei com dia com dores nos músculos da face. Parece cômico, mas eu fiquei bem preocupada, como moro em São Paulo, uma cidade com construções novas e modernas, foi um choque. Outro choque foram os preços, na época (2007) o euro estava em torno dos R$ 3,40 e os aluguéis entre 800,00 a 1200,00 Euros. Ou seja, um preço muito alto para o padrão oferecido. Os lugares eram bem pequenos e, como já disse, muito mais muito antigos mesmo.

É interessante destacar que na Europa a arquitetura é preservada, ou seja, mesmo que a construção seja nova, esta deve seguir os mesmos projetos de desenhos tradicionais.

Os bairros ao redor do centro possuíam apartamentos maiores e até mais novos, porém eram mais caros ainda. Com isso acabamos alugando uma casa num distrito chamado Mestrino, 10Km do centro histórico.

Veneza - Arquivo pessoal Elizabeth

Veneza – Arquivo pessoal Elizabeth

Como foi o processo de adaptação?

Elizabeth – A adaptação não foi fácil, primeiramente por causa da língua, eu não falava italiano fluentemente e os italianos não faziam questão de tentar entender, e também não falavam inglês fluente. Outro ponto difícil foi a cultura, eles são tradicionais, voltados para família.

Eles desconfiam um pouco de estrangeiros, um dos motivos alegados por eles é que muitos romenos (Romênia) se mudam para lá e cometem muitos delitos, furtos, bagunça etc.

O segredo é ser humilde, mesmo quando alguém fala ou faz algo desagradável é muito importante não desistir, ter paciência e ser insistente. Foi assim que conquistamos a confiança e amizade de muitos. E uma vez que eles te acolhem, cria-se uma amizade muito legal. Mas vou deixar claro que não é uma missão fácil.

Sardenha - Arquivo pessoal Elizabeth

Sardenha – Arquivo pessoal Elizabeth

Qual foi o seu maior choque cultural?

Elizabeth – Os italianos se vestem muito bem, não é a toa que Milão é considerada a capital da moda. Até para ir ao mercado se produzem por inteiro. Os homens são tão ligados a aparência quanto as mulheres. Eles se depilam, fazem as sobrancelhas, bronzeamento, usam roupas justas, e alguns, por incrível que pareça, se maquiam. Isso mesmo, passam maquiagem. Cheguei a me assustar um pouco, comecei a achar que todos fossem homossexuais, mas depois me acostumei com o estilo. Só não me acostumei com a falta de respeito. Eles olham e mexem com as mulheres estejam elas acompanhadas ou não. Secam na cara de pau. Mas, uma vez que você está na casa deles, quero dizer, habitando no país deles, tem que tentar impor respeito aos poucos e relevar bastante coisa.

Sardenha - Arquivo pessoal Elizabeth

Sardenha – Arquivo pessoal Elizabeth

Qual a maior diferença entre Itália e o Brasil?

Elizabeth – Antes de destacar as coisas boas, tem mais algumas coisas que é bom saber. Os italianos tem um jeito bruto de ser, falam alto, gesticulam muito, parece que estão brigando o tempo todo, e não são muito pacientes, principalmente com turistas. Várias vezes que precisei pedir informação, não fui muito bem recebida. Quando meu italiano não era fluente fui muito zoada, caçoavam do meu sotaque e, pior, até do meu português. Quando escutavam eu conversando na minha língua, me imitavam, diziam que a língua portuguesa é feia.

Outra coisa muito desagradável que me aconteceu foi com relação a comida. No brasil, é comum em refeições não formais que se coloque no prato tudo aquilo que quer comer, por exemplo salada e grelhado, macarrão com alguma mistura etc. Bom, nunca faça isso com os italianos. Vou repetir, nunca façam isso na Itália. Eles levam muito a sério a comida, e deve-se respeitar o “primo”, o “secondo” que seria a entrada, o primeiro prato o segundo ou prato principal. Não significa que não se pode comer uma macarronada e uma carne, apenas tem que comer um de cada vez, saborear o que cada prato tem a oferecer. Parece um exagero, mas é muito importante respeitar a outra cultura e tentar entender que não é a toa que são conhecidos pela cozinha saborosa.

Veneza - Arquivo pessoal Elizabeth

Veneza – Arquivo pessoal Elizabeth

Você passou por alguma situação embaraçosa?

Elizabeth – Meus sogros foram passear pela Itália e o voo de volta saia de Milão bem tarde, eles optaram por ir até um hotel próximo para descansar até a hora do voo. Foram até um taxista e pediram que o levassem até um hotel, o homem perguntou se eles tinham reserva, eles responderam que não e o cara ficou irritado. Ninguém entendeu o motivo. Para piorar, ele gritou para todos os outros motoristas que não prestassem serviço a eles. Meu sogro, inconformado, começou a discutir o com senhor. Ele não entendia o motivo de toda a ignorância do taxista, afinal ele pagaria pela corrida. Acontece que, ao invés de o senhor dizer que era necessário fazer uma reserva no balcão de atendimento dentro do aeroporto, que sem isso ele não poderia fazer a corrida, ele preferiu fazer um escândalo. Poderia ter simplificado as coisas e ajudado um turista que poderia não voltar mais ao país pela atitude dele.

Um segundo caso foi quando meus pais passeando por Roma, foram almoçar em um restaurante, meu pai pediu um prato de massa e um de carne, ele queria provar os dois. O dono do restaurante simplesmente disse não ao pedido dele e pediu que ele se retirasse. Meu pai sem entender e sem falar a língua ficou assustado com a atitude do dono. E para não causar problemas pediu que o senhor trouxesse qualquer prato que estava tudo certo. Todo esse constrangimento poderia ter sido evitado se o garçom, ou até o próprio dono, explicassem o esquema dos pratos.

Veneza - Arquivo pessoal Elizabeth

Veneza – Arquivo pessoal Elizabeth

O que você mais gosta na Itália?

Elizabeth – A Itália é um lugar lindíssimo de se conhecer, encantadora. Com pouco dinheiro é possível comer bem. Existem muitos restaurantes de famílias com comida muito boa e barata. Me lembro que eu almoçava quase todos os dias em um lugar muito bom, pagava dez euros e tinha direito até a sobremesa e café.

Ah! o café italiano é maravilhoso. O grão é brasileiro, mas é torrado e moído por eles com muito cuidado para zelar pelo sabor. Não teve um lugar se quer que eu comi mal. Tudo era bom.

Eu tive a oportunidade de viajar bastante pelo país e conhecer muitas cidades. As estradas são excelentes, a paisagem é divina. Por isso eu digo que vale muito, mais muito a pena mesmo conhecer esse país. Quem gosta de história, e até quem não gosta, se realiza ao reconhecer em cada monumento tantos acontecimentos. Eu até digo para aqueles que desejam conhecer a Europa, para irem aos poucos e conhecer mais lugares de um país, do que visitar várias capitais, com isso é possível aprender mais da cultura, explorar bem o local.

Pisa - Arquivo pessoal Elizabeth

Pisa – Arquivo pessoal Elizabeth

Você moraria na Itália novamente? Tem alguma dica para os viajantes que vão morar ou visitar o país pela primeira vez?

Elizabeth – Eu, particularmente, não escolheria a Itália para morar, mas voltaria a visita-la com certeza, como o fiz em 2008 e 2009. Visite, explore, coma muito, vale a pena. Não vou indicar cidades em específico porque acho tudo lindo, romântico, encantador, e paradisíaco, as ilhas do sul do país são impressionantes. Falando em Sul, existe um preconceito muito grande entre os habitantes do norte com os do sul. Eles dizem que o povo do sul não gosta de trabalhar, que são mafiosos, bandidos etc. O preconceito é serio mesmo. Porém, dizem que o povo do sul é mais receptivo, acolhedor e simpáticos. Como morei no Norte, não consegui sentir essa diferença, mas por ser algo dito pelos próprios italianos, eu acredito.

É bom ressaltar que morei pela Europa até o final de 2009 e não voltei mais para lá depois disso. Alguns conhecidos que foram recentemente dizem que toda a arrogância de alguns dos europeus melhorou com a crise, afinal o turismo trás dinheiro para a terra deles.

Qual o seu maior sonho de viajante?

Elizabeth – Eu, graças à Deus, tive a oportunidade de conhecer muitos países e muitas cidades, mas o mundo é muito grande e tem muitos outros lugares que sonho em conhecer. Meu sonho é investir sempre em viagens. Prefiro até economizar no dia a dia para poder passar mais tempo nos lugares que vou.

Beth, muito obrigada pela entrevista, amamos! ❤

Tem alguma experiência que você quer compartilhar? Manda pra gente!

Beijos

Fer Toyomoto.

 

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Um comentário sobre “Conexão Brasil – Itália

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